
Depois de passar vários dias analisando a trajetória do sistema financeiro global, é claro que 2026 se apresenta particularmente difícil. Os sinais provenientes dos mercados de títulos, em particular os dos Treasuries americanos, são preocupantes. A volatilidade dos títulos já começa a se manifestar, e o índice MOVE, que mede essa volatilidade, sobe lentamente, mas seguramente — um fenômeno que nunca aparece sem razão.
Três pontos de tensão principais estão se delineando:
1️⃣ O Tesouro americano
Em 2026, o Tesouro terá que refinanciar enormes volumes de dívida enquanto continua a gerenciar déficits massivos. Os custos dos juros aumentam fortemente. Os investidores estrangeiros tornam-se mais cautelosos.
As instituições financeiras têm menos margem de manobra para absorver essa dívida.
As adjudicações longas já mostram sinais de tensão: filas maiores, demanda mais fraca, e menos apetite para absorver a oferta. Não é uma teoria, é observável nos dados. Esse tipo de tensão pode provocar choques de financiamento, não por pânico, mas por vendas silenciosas em adjudicações difíceis.
2️⃣ O papel do Japão
O Japão, principal detentor de Treasuries e ator central dos carry trades, pode amplificar essas tensões.
Se o ien continuar a flutuar fortemente e o Banco do Japão precisar intervir, os carry trades se desfazerão rapidamente.
As instituições japonesas não venderão apenas ativos domésticos, mas também obrigações estrangeiras.
Essa dinâmica exerce uma pressão adicional sobre os rendimentos americanos no momento em que a demanda é mais necessária. O Japão não é a causa inicial da crise, mas um amplificador poderoso.
3️⃣ A China
A China representa outro fator de pressão. Os problemas persistentes relacionados à dívida local e às finanças dos governos locais não desapareceram.
Se o estresse se tornar visível no mercado, o yuan pode se desvalorizar, os capitais buscarão segurança, e o dólar se fortalecerá.
Essa situação reforça diretamente os rendimentos americanos, fazendo da China um segundo amplificador em vez de uma fonte de origem do choque.
As consequências para 2026:
Não é necessário um evento espetacular para desencadear a crise. Uma simples adjudicação mal recebida de Treasuries a 10 ou 30 anos pode ser suficiente para fazer os rendimentos dispararem, restringir o financiamento global e provocar uma reavaliação rápida dos ativos de risco. O cenário pode ser o seguinte: rendimentos de longo prazo em alta, dólar fortalecido, liquidez escassa, vendas massivas em ativos de risco e propagação da volatilidade.
Os bancos centrais intervirão então para injetar liquidez e estabilizar o sistema, mas isso preparará o terreno para a próxima fase: queda dos rendimentos reais, recuperação dos ativos tangíveis e reinício dos ciclos inflacionários.
2026 será, portanto, um momento crucial, não porque tudo desmorona definitivamente, mas porque vários ciclos de estresse culminarão simultaneamente. E os sinais precoces já estão lá.